Olha que o budget cap vai sair caro

Olha que o budget cap vai sair caro



A Formula 1 entra numa época sem precedentes, por fim, depois de tanto ser debatido, será introduzido um tecto orçamental no valor de $175m. O objectivo é claro, reduzir os custos associados ao desporto que têm complicado a entrada e ou permanência de equipas na modalidade, nivelar o campo de batalha e assegurar que não são necessários orçamentos imensuráveis para se chegar à vitória.

Parece tudo bem certo? Mas até à introdução deste tecto orçamental existe pelo meio 2020.


A particularidade de época que se avizinha é que se trata de um ano de transição para um novo regulamento técnico, onde as equipas necessitam não só de competir pelo menos com um carro actualizado, mas também desenvolver um completamente novo para 2021.



Comecemos então por esclarecer o que é este tecto orçamental. As equipas irão gastar bastante mais do que o valor proposto, para começar, e ainda que tenha sido limitado a $15m por ano, o investimento em motores não entra no orçamento, assim como não entram as despesas relacionadas com marketing, ordenados de pilotos e das 3 figuras mais bem pagas na estrutura. Para além disto, equipas como a Williams, que têm “heritage programs” ficam também isentas de declarar esses gastos (imaginem um FW07 adaptado a fazer um “programa” só na brincadeira, mas com um fundo plano do século 21). Por fim, bónus aos trabalhadores, taxas e compra de super-licenças também não entram no orçamento.


Então estão isentos de tudo? É um pergunta de facto válida, mas não, o tecto orçamental só se aplica a tudo o que esteja relacionado com a performance do carro. E qual é o primeiro indício de que pode não ter grande impacto? A Ferrari aceitou...

Isto leva-nos de novo para 2020.





E de volta à Williams também. Em 2019 o orçamento da equipa de Sir Frank estima-se ter sido de $150m (por racefans.net), na mouche com o limite de 2021, ou assim parece, estes 150 correspondem a todas as despesas e não apenas aquelas ligadas à performance do carro. Assim sendo a Williams já está bem dentro do limite que lhe será imposto. Curiosidade em relação a este orçamento, 30 destes milhões têm origem nos pilotos.


Já referimos que é um posicionamento normal por parte da Williams, um talento, quando possível, e uma carteira. Mas o gasto com a época de 2020 espera-se que seja tão grande que para reforçar a injeção feita por Latifi, a Williams anunciou recentemente Roy Nissany como piloto de testes, um anuncio feito com pompa e circunstância em Israel. Isto irá permitir à equipa desenvolver um carro para 2020 de forma a que se aproximem do pelotão, enquanto trabalham num carro capaz de pelo menos lutar por sólidos pontos em 2021.



Outra equipa com orçamento semelhante aos britânicos mencionados anteriormente é a Haas. Mas enquanto que o grupo WAE (Williams Advanced Engineering) entra apenas com $5m na operação (restantes correspondem a patrocinadores, pilotos e FOM), reporta-se que Gene Haas investe 60 milhões do valor total. Isto coloca os americanos numa situação caricata, sendo que ambas as equipas têm o mesmo orçamento, a época sai bem mais barata à Williams. Gene Haas não quer sair, mas coloca-se a questão de como irá abordar 2020. Não será por isso de admirar que a Haas caia mesmo para trás da Williams na tabela classificativa (sim, prognósticos a esta hora é mesmo a pedi-las), focando grande parte do investimento para 2021. O modelo atípico da Haas, independentemente dos valores envolvidos é difícil de prever, e o novo monolugar, que se espera parecido ao SF90, poderá brilhar no ínicio da época.





Situação sui generis vive-se também entre Milton Keynes e Faenza. A RedBull e a recém rebatizada Alpha Tauri são as únicas equipas que verdadeiramente vivem uma da outra, sendo a Alpha Tauri claramente uma equipa B, por vezes laboratório de testes da RedBull.


Isto significa que a Alpha Tauri não terá problemas em ficar abaixo do orçamento, mas a RedBull tem o dobro do orçamento? Sim, nos regulamentos existem alíneas que informam quais os componentes que devem ser desenvolvidos in-house, sendo que estes são sobretudo relevantes para a aerodinâmica do carro. Mas há dúvida de que estas equipas trocam informação constante? Será curioso perceber, assim que o tecto orçamental estiver em vigor, que tipo de sinergias existem entre a RedBull e a Alpha Tauri, e que tipo de componentes migram de uma equipa para a outra. Sendo que, ou pelo menos assim se espera, o conceito aerodinâmico de ambas, será muito parecido.





Zak Brown, manda chuva na McLaren, foi a favor deste tecto orçamental. Sempre o disse, e recebeu de braços abertos estas notícias. Não é de admirar, nos tempos da McLaren-Honda o orçamento em Woking estava por cima dos $400m, com a quebra de relações e passagem de manufacturing status para cliente deve ter sofrido cortes certamente. Brown diz contudo algo interessante, os ordenados dos pilotos deveriam estar incluídos no orçamento.


Isto por um lado é bom, mas por outro poderia apresentar problemas. Seria positivo, porque poderia aumentar a influência do piloto na performance da equipa, diz-se que a F1 hoje em dia é 70% máquina, 30% piloto, há quem diga até que os 70 já passaram a 80%. Colocar o salário do piloto como uma das fatias do bolo obrigaria as equipas a prioritizar gastos, se querem um dos melhores pilotos da grelha terão que perder margem de manobra no desenvolvimento, e vice-versa, se preferem fazer o melhor carro possível podem não ter mãos para o levar à vitória. Isto seria de facto interessante e até uma forma de encurtar distâncias no pelotão. Numa altura em que 2021 terá os carros mais prescritos de sempre na história da F1.


Por outro lado, e tendo em conta os ordenados astronómicos das maiores estrelas, e comparando com alguns dos outros, esta medida poderia alienar os melhores pilotos para outras paragens que não a F1. Imaginem Gunther Steiner na reunião com os seus pilotos “Kevin, Romain, a Mercedes paga para cima de 50 milhões ao Lewis, isso é 33% do orçamento deles, como querem que vos pague mais do que o ordenado mínimo?”.

Sim, é exagerado, mas talvez não seja descabido. Para além disso poderia dar azo a que os pilotos pagantes ganhassem ainda mais poder, ora numa Formula em que o ordenado do piloto entra no orçamento, é de facto tentador ter um piloto que contribui para o orçamento global e não é um valor negativo no mesmo.




Em Silverstone vivem-se dias diferentes, Lawrence Stroll salvou a Force India, rebatizando-a de Racing Point e deseja fazer o mesmo com a Aston Martin, unindo inclusive os seus “meninos” a partir de 2021, ficando a Aston Martin com uma equipa de F1 por consequência. Lawrence Stroll, certamente pouco consensual, sobretudo pela forma como tem impulsionado a carreira do jovem Lance, tem sido uma lufada de ar fresco para o desporto. Num consórcio onde o fundo de maneio parece não ser problema, prepara-se o futuro de forma a criar uma equipa forte em 2021. A Racing Point seria sempre uma equipa de transição, e segurando Sérgio Perez, permitirá à equipa construir um monolugar competitivo para 2021, eventualmente descurando 2020, que seria sempre um ano para recuperar tempo perdido em 2019 com a transferência da Force India.





Já a Mercedes e a Ferrari, são casos semelhantes neste assunto. Ambos têm, ou pelo menos assim foi reportado, um orçamento superior a $400m. Novamente, nem todo este valor é direcionado a performance, mas vamos imaginar que 300 desses 400 milhões é o que estas duas equipas investem na busca de vitórias. Só por si, já é o dobro do permitido em 2021. Para 2020, certamente a Mercedes quererá deixar a sua hegemonia nesta era como cartão de visita, por isso, o seu orçamento deverá estar perto desse valor novamente, já a Ferrari quer precisamente impedir a Mercedes de tal feito, como tal, no caso da Scuderia também não é de estranhar que o cheque tenha semelhante número.

Acrescentamos a isto o desenvolvimento para o carro de 2021, haverá dúvidas que ambas as equipas irão gastar o que for preciso para garantirem que começam com um pé à frente? E qual será esse valor? Outros 300 milhões? Significa isto que em 2020 irão gastar somas que podem rondar os 600? Já está a sair caro este tecto orçamental, 600 milhões são quase 4 épocas do novo regulamento (três e meia para ser preciso).



Ross Brawn, diz não estar preocupado, e que não acredita que 2020 será o ano mais caro de sempre da F1. Preocupados também não estamos, afinal não somos nós a pagar, mas há dúvidas que está o potencial reunido para que seja de facto a época mais cara de sempre da F1 justamente antes do momento em que se querem controlar os custos?

Isto permite, aos que podem, dar um passo antes dos outros, implica que as equipas com menor poder financeiro tenham uma preparação distinta, provavelmente desistindo de 2020 à partida e por fim, as tão esperadas novas equipas que agora sabem qual será o custo do sucesso, terão que imaginar se esse valor é real e mitigar o ano de 2020 de todos aqueles que estão neste momento envolvidos no desporto.


Esta benesse no ano de transição, colocando apenas o tecto orçamental no 1º ano das novas regras (sabendo-se perfeitamente que existe um ano zero a nível de desenvolvimento), possui um grande risco. As equipas que mais gastam em 2020 podem colher um benefício a nível de performance para 2021 e como os gastos a partir daí são limitados será mais difícil lcançar a convergência. Um livro de regras restrito é o que a FIA espera ser a solução para isto, roubando assim um pouco da essência daquilo que é a F1 sem resultados garantidos, pelo menos para já.





Como já tivemos oportunidade de dizer, tecto orçamental sim, aliás em engenharia é impossível ter um poço sem fim de fundos, e essa barreira até a vemos como interessante para as equipas, premiando o engenho e a astúcia. Mas, um tecto orçamental que começa desfasado com o início dos programas de desenvolvimento para 2021 e associado a um regulamento restritivo parece-nos incoerente. Que seja mais um caso para a barraquinha de tarot, pois aí nunca acertamos!


Para terminar duas notas positivas, há algo que dificilmente não funcionará, em anos passados não era anormal Ferrari, Mercedes e RedBull gastarem mais sozinhas do que todas as outras juntas. O tecto orçamental servirá pelo menos para pôr fim a isso e premiar aqueles que conseguem fazer mais com menos, aqueles que serão mais astutos a perceber o desenvolvimento do seu carro. Por isso, para já, não coloquem de parte uma vitória da Aston Point...Racing Martin...ok, se calhar não é para tanto.




A segunda está relacionada com os patrocinadores, estes sabem agora qual o orçamento anual que “interessa”, e sendo que este, assim que seja aplicado, será mais baixo do que o que era até agora, isto poderá facilitar a procura de empresas dispostas a pagar pelo espaço livre nos monolugares, trazendo assim outra fonte de rendimento às equipas que tinha dificuldade em assegurar um patrocinador principal com capacidade impacto, sobretudo contra as maiores equipas. Desde que claro, não seja demasiado Rich...

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Imagem "sobre nós": https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Pedro_Lamy_-_Imola_1996.jpg

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