Grande Prémio de Portugal: das origens aos nossos dias - parte 3 de 3

Grande Prémio de Portugal: das origens aos nossos dias - parte 3 de 3

Os últimos anos: alterações no circuito e o adeus à Fórmula 1


Em 1994 o Autódromo do Estoril viu pela primeira vez o seu traçado alterado, os trágicos acontecimentos ocorridos apenas quatro meses antes em Imola mudariam para sempre a Fórmula 1 e o Estoril não foi excepção. No rescaldo das mortes Senna e Ratzenberger, a FIA exigiu a introdução imediata de diversas alterações nos circuitos e nos carros de forma a diminuir drasticamente as velocidades em pista. No Estoril, a principal vítima destas alterações foi a célebre curva do tanque, uma curva rápida e com pouca escapatória. Em vez de uma curva rápida foi colocada a chama Variante que incluía um gancho seguido de uma curva muito lenta, o que se traduziu em tempos por volta muito superiores. A volta mais rápida da corrida de 94 foi cerca de dez segundos mais lenta que a volta mais rápida do ano anterior.

Vista área do traçado do Autódromo do Estoril na sua versão actual. Em cima à direita é possível ver claramente a Variante introduzida à Curva do Tanque em 1994. É também notória a nova Curva 1 que seria introduzida em 1999

Entre os pilotos, o homem da casa, Pedro Lamy, foi mais uma das vítimas desse ano fatídico. Ao testar algumas das alterações impostas pela FIA em Silverstone, a asa traseira do seu Lotus cedeu, deixando o carro de Lamy desgovernado a mais de 300 km/h. Como consequência, Lamy partiu ambas as pernas mas perdeu o resto da época e por isso não marcou presença no Estoril, sendo substituído pelo seu antecessor, Alessandro Zanardi. Sem os pilotos favoritos do público da casa, Senna falecido e Lamy a recuperar dos seus graves ferimentos, o líder do campeonato, Michael Schumacher engrossou a lista de notáveis ausências da prova portuguesa por estar a cumprir uma suspensão de duas corridas por ter ignorado bandeiras pretas em Silverstone por ordem da sua equipa.

Em 1995, durante a qualificação Damon Hill teve um desentendimento com Eddie Irvine que acabou com o FW-17 do britânico virado de ao contrário na gravilha

Com Schumacher de fora, Damon Hill não deixou escapar a oportunidade de encurtar a diferença pontual para o alemão e venceu a corrida seguido do seu colega de equipa, o rookie David Coulthard que ocupara o segundo Williams após a morte de Senna e que fizera também a volta mais rápida. Mika Häkkinen completou o pódio no terceiro lugar. Gerhard Berger tinha feito a pole-position mas desistiu à sétima volta com problemas na caixa de velocidades. De fora da corrida ficaram os dois Pacific que com o pelotão agora composto por 28 carros, não conseguiram a qualificação. No final da corrida Hill conseguiu reduzir a diferença pontual para Schumacher apenas um ponto enquanto que a Williams subiu ao primeiro lugar com a dobradinha após a Benetton marcar apenas dois pontos com o quinto lugar de Jos Verstappen. Tudo em aberto para as últimas corridas onde Schumacher e a Williams iriam confirmar os respectivos títulos num final de temporada, no mínimo, polémico.

Com Schumacher ausente devido a uma suspensão de duas corridas, Damon Hill não desperdiçou a oportunidade de encurtar a distância para o alemão e assim poder continuar a sonhar com o título de 94

A luta entre Hill e Schumacher animou a temporada seguinte e é num clima aceso depois de vários incidentes entre ambos que o Mundial chegou uma vez mais ao Estoril. Schumacher liderava com 15 pontos de avanço sobre Hill quando faltavam cinco provas para o final, incluindo a portuguesa. Pedro Lamy estava de volta à pista depois de enfrentar uma longa recuperação após o seu acidente na Lotus. Quando regressou, a Lotus já não existia e o português ocupou o lugar de Pierluigi Martini na Minardi a partir da Hungria. Lamy qualificou-se em décimo-sétimo partilhando a nona linha da grelha com o seu colega, Luca Badoer que se qualificou no lugar a seguir. Na frente, a Williams garantiu a primeira linha com Coulthard na frente de Hill e logo seguidos do Benetton-Renault de Schumacher.


Partida para o GP de 1995. Na frente, Coulthard seguido de Hill e Schumacher. Ao fund à direita é visível o Tyrrell de Katayama em pleno voo

A corrida ficaria marcada por um violento acidente logo na partida. Na largada o Tyrrell-Yamaha de Ukyo Katayama surgiu no caminho do Minardi-Ford de Luca Badoer. Badoer não evitou a traseira do Tyrrell e acertou no carro do japonês, projectando-o no ar e fazendo-o dar uma série de cambalhotas aparatosas até aterrar sobre o roll-bar, de rodas para o chão. Katayama teve que ser extraído do carro e sofreu alguns hematomas e uma lesão no pescoço que o faria perder a corrida seguinte, em Nürburgring mas felizmente não deixou sequelas no piloto japonês.

Caos no fundo da grelha: Katayama após aterrar do violento acidente causado pelo toque com Badoer. Ao centro na imagem, o Footwork de Massimiliano Papis e o Pacific de Andrea Montermini que acabaram por também ser envolvidos no acidente

Quanto ao resto da corrida não teve grande história. Coulthard venceu facilmente e Schumacher conseguiu ganhar uma posição a Hill, aumentando em dois pontos o avanço para o inglês no campeonato. Com este resultado o pódio era composto a 100% por carros com motores Renault. Entre os construtores, apesar da vitória de Coulthard, continuava a ser a Benetton-Renault que liderava e assim ficou até final da época. Pedro Lamy desistira logo à sétima volta com a caixa de velocidade do seu Minardi a ceder prematuramente.

Capa do programa oficial do Grande Prémio de Portugal de 1996

O último Grande Prémio de Fórmula 1 no Estoril teria lugar no ano seguinte. O dia 22 de Setembro de 1996 iria marcar a despedida da Fórmula 1 do Autódromo Fernanda Pires da Silva embora a prova estivesse no calendário para o ano seguinte. O líder do campeonato e futuro Campeão do Mundo, Damon Hill, conseguiu a pole-position na frente do seu companheiro de equipa e único adversário no Mundial, o rookie Jacques Villeneuve. Os dois Minardis ocuparam a décima e última linha da grelha de partida com Lamy na frente do seu colega Giovanni Lavaggi.


Villeneuve e Schumacher em luta. Villeneuve acabaria por passar Schumacher por fora na Parabólica enquanto ambos se preparavam para dobrar o Minardi de Lavaggi

Numa corrida sem grande história, Villeneuve acabou por superar Hill e levou a decisão do título para a corrida seguinte, a última da temporada, no Japão. Hill tinha agora nove pontos de avanço para o canadiano com dez em jogo mas não deixaria fugir o campeonato. A Williams-Renault chegara ao Estoril já campeão e com mais pontos que Benetton e Ferrari juntas, as quais discutiam entre si o segundo lugar, separadas por apenas um ponto. O campeão em título, Michael Schumacher, agora na Ferrari, acabou em terceiro, na frente do Benetton-Renault de Alesi, impedindo assim a Renault de repetir o feito do ano passado onde ocupara todos os lugares do pódio.


Pódio de campeões na despedida do Estoril: Villeneuve, futuro campeão em 1997, vence seguido de Damon Hill que seguia na rota para se sagras campeão. O campeão em título, Schumacher, ocupou o lugar mais baixo do pódio

Na despedida da Fórmula 1 de Portugal, Pedro Lamy conseguiu finalmente terminar uma prova em casa mas o seu Minardi-Ford era um carro lento e ultrapassado e terminou em décimo-sexto e último, a cinco voltas de Villeneuve. No final desse ano, tal como o Estoril, Lamy também dexaria a Fórmula 1.

À terceira foi de vez: em 1996 Pedro Lamy finalmente conseguiu terminar uma corrida em casa

O calendário original da temporada de 1997 foi publicado pela FIA no dia 19 de Fevereiro de 1997 e no qual constava o Grande Prémio de Portugal, como habitualmente realizado no Autódromo do Estoril. Ao contrário do habitual, a prova portuguesa não foi agendada para Setembro mas sim no dia 26 de Outubro onde encerraria a temporada após o Grande Prémio do Japão. A razão para o adiamento prendia-se com a necessidade de realização de obras profundas no circuito e assim a corrida foi agendada para o mais tarde possível e colocada à condição no calendário.


Calendário da temporada de 1997 com Portugal agendado para 26 de Outubro, sujeito à conclusão atempada das obras no Estoril

Três meses mais tarde as obras praticamente não tinham arrancado. A FIA exigia que a Curva 1 fosse reconstruída para melhorar a segurança para além de exigir o reasfaltamento da pista, a construção de um novo hospital no circuito e a construção de um centro de imprensa dotado com a mais moderna tecnologia existente à época. É também necessário alargar escapatórias, renovar paddock e zona das boxes. Com as obras extremamente atrasadas, a FIA viu-se forçada a remover a prova portuguesa do Mundial de Fórmula 1 e que Jerez entraria em sua substituição, deixando contudo a porta aberta para o regresso da prova no Estoril:


A emenda ao calendário original, publicada em 15 de Maio de 1997, que dava conta da saída do Grande Prémio de Portugal do calendário desse ano sendo substituído pelo Grande Prémio da Europa em Jerez de la Frontera

A possibilidade do Estoril regressar à Fórmula 1 já em 1998 foi falada na altura mas posta de parte porque… as obras ainda não estavam concluídas. A competição automóvel só voltaria ao Estoril em Novembro de 1999 com as finais internacionais Renault mas aí já a Fórmula 1 partira em definitivo. Com a morte de César Torres em Novembro de 1997 Portugal perdera também uma figura de relevo político e influência junto da FIA.

Entretanto, à data de escrita deste texto, vinte e quatro anos passaram desde a última vez que a Fórmula 1 visitou Portugal.


Algarve e a GP2


Pódio da corrida de GP2 em 2009 no Autódromo Internacional do Algarve com um rara foto de Nico Hülkenberg no pódio com Luca Filipi na segunda posição e Lucas di Grassi em terceiro

Na primeira década do século XX um novo projecto de um Autódromo com capacidade de acolher qualquer categoria de automobilismo surgiu no sul do país, no Algarve. O Autódromo Internacional do Algarve, nos arredores de Portimão surgiu com o objectivo de trazer a Fórmula 1 de volta a Portugal e tal esteve próximo de acontecer no final da década. No final de 2008 e no início de 2009 várias equipas de Fórmula 1 testaram no novo circuito e no final de 2009 o autódromo recebeu a última prova da GP2 Series, principal corrida de promoção da Fórmula 1. A prova foi vista como um ensaio para que a pista pudesse receber a Fórmula 1 e ressuscitar o Grande Prémio de Portugal mas em plena crise económica não seria sustentável financiar um evento desta dimensão e os planos foram por água abaixo.


Lewis Hamilton em 2009 a testar com a McLaren no Autódromo Internacional do Algarve. Em Julho de 2020, esta sessão de testes foi a última visita oficial da Fórmula 1 a Portugal

Covid-19 e o regresso O ano de 2019 foi mais uma época normal na história da era híbrida da Fórmula 1: a Mercedes dominou a temporada, Lewis Hamilton e a sua equipa cedo carimbaram ambos os títulos. Assim se passou mais um ano e, como habitualmente, durante a temporada a Liberty anunciou o calendário para 2020: pela primeira vez o Mundial de F1 iria ter 22 corridas e dois novos circuitos: um circuito citadino em Hanói, Vietname e Zandvoort, na Holanda. De fora ficava Hockenheim, na Alemanha.


Só que os planos para a mais longa temporada de sempre da Fórmula 1 cedo ficaram ameaçados, muito antes ainda de alguém sequer suspeitar: a 31 de Dezembro de 2019 é reportado um caso de uma nova nova doença na cidade chinesa de Wuhan. A doença, ficaria conhecida como Covid-19 e mudaria para sempre o Mundo e o desporto automóvel não escapou a este terramoto que abalou toda a civilização.


Em Fevereiro a temporada de F1 arrancou como habitualmente com os testes de conjunto em Barcelona. Ao longo de duas semanas as equipas rodaram com um burburinho em fundo da tal doença que poderia pôr em causa a primeira corrida na Austrália. Por esta altura já o GP da China tinha sido adiado para data incerta. A 11 de Março a OMS declara que o surto de Covid 19 se tinha tornado numa pandemia e nessa mesma semana toda a caravana da Fórmula 1 desloca-se para a Austrália para disputar a tradicional prova de abertura do campeonato.


Apesar do público se ter juntado à entrada do circuito, a corrida seria mesmo cancelada já depois da hora em que o circuito supostamente abriria ao público depois de terem sido detectados casos de Covid 19 no paddock e já dois dias depois da McLaren ter abandonado a corrida devido à ocorrência de um caso no seio da equipa.


Seguiram-se uma maré de cancelamentos e adiamentos e o campeonato ficou em suspenso durante meses. Na data prevista realizou-se finalmente o GP da Aústria, no primeiro fim de semana de Julho. O Mundial começara com apenas 8 provas e 6 circuitos confirmados enquanto a Liberty e a FIA procuravam alternativas para poder realizar uma temporada com um mínimo de 15 ou 16 corridas.


Finalmente na véspera da segunda prova da época são confirmadas mais duas provas: o GP da Rússia mantém a data prevista e um novo circuito é adicionado ao Mundial. Mugello, na Toscana, iria fazer a sua estreia no Mundial de Fórmula servindo de palco precisamente ao Grande Prémio da Toscana.


O campeonato ainda estava incompleto e algumas semanas mais tarde, a 24 de Julho, seria anunciado novo alargamento: o Grande Prémio da Alemanha regressava mas desta feita romaria a Nurbürgring; Imola estava também de volta ao Mundial, agora como Grande Prémio da Emilia-Romagna. Entre as novas provas estava ainda mais um regresso: o Grande Prémio de Portugal volta a fazer parte do Mundial de Fórmula 1 vinte e quatro anos depois da última prova no Estoril. Desta vez, a prova será no Autódromo Internacional do Algarve, em Portimão que receberá finalmente a sua primeira prova de Fórmula no fim de semana de 23 a 25 de Outubro.


Como curiosidade, quando a prova decorrer em Outubro terminará o segundo hiato de vinte e quatro anos entre provas. É o quarto circuito diferente a receber a prova portuguesa. Será um evento único devido à situação excepcional criada pelo Covid 19 mas fica a esperança de que um evento bem sucedido possa vir a lançar as bases para que não seja necessário esperar mais vinte e quatro anos para voltarmos a ver a Fórmula 1 em Portugal.

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Imagem "sobre nós": https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Pedro_Lamy_-_Imola_1996.jpg

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