Grande Prémio de Portugal: das origens aos nossos dias - parte 1 de 3

Grande Prémio de Portugal: das origens aos nossos dias - parte 1 de 3

Passaram-se 24 anos desde o último Grande Prémio de Portugal em Fórmula 1 disputado no Autódromo Fernanda Pires da Silva, mais conhecido por Autódromo do Estoril entre todos aqueles que acompanham o automobilismo. Ao longo de 13 edições disputadas em três circuitos diferentes e em duas eras muito distintas que distam entre elas também 24 anos.


Desde os anos 50 até aos 90 vimos campeonatos serem decididos, ultrapassagens espectaculares, momentos memoráveis que ficam para a história e que são o que nos fazem a todos gostar tanto deste desporto.


Os primórdios


Como foi acontecendo em quase tudo o que estava relaccionado com o automóvel no século XX, Portugal foi ficando para trás quando comparado com outros países europeus e apesar da realização de algumas provas com carros de Sport nos anos 30 nunca houve uma prova que conseguisse aproximar-se das grandes corridas de Grand Prix da época, notavelmente o Grande Prémio de França e o Grande Prémio da Alemanha, as provas mais importantes de então.


É nos anos 50 que irá surgir pela primeira uma prova designada de “Grande Prémio de Portugal”. Foi em 1951 que o Automóvel Club de Portugal decide organizar um Grande Prémio para tentar colocar Portugal na rota das grandes corridas europeias numa Europa ainda a erguer-se das cinzas do pós-guerra. A prova foi organizada no Circuito da Boavista, no Porto e coincidia com o II Circuito Internacional do Porto depois da prova inaugural ter sido realizada ainda nos anos 30. O ACP prometia uma avultada quantia de prémios e cerca de 30 pilotos alinharam à partida, 16 dos quais pilotos estrangeiros. O primeiro Grande Prémio de Portugal seria realizado com Sports-Car e seria vencido por Casimiro de Oliveira, irmão do mítico realizador portuense Manoel de Oliveira. Casimiro foi um destacado piloto no panorama nacional à época e o seu irmão Manoel também foi presença regular nas pistas até se dedicar a tempo inteiro à sétima arte.


Cartaz do primeiro Grande Prémio de Portugal

O Grande Prémio de Portugal continuaria a percorrer os pouco mais de 7km do traçado da Boavista nas duas edições seguintes, fazendo uma passagem por Lisboa e pelo Circuito de Monsanto em 1954 antes de regressar novamente à Boavista para a última edição realizada nestes moldes.


Partido do I Grande Prémio de Portugal no Circuito da Boavista

Entretanto o Grande Prémio de Portugal obteve algum prestígio e pilotos de renome foram marcando presença na prova. A edição de 1954 por exemplo seria vencida pelos dois principais pilotos da Ferrari no Mundial de F1, José Froilan Gonzales seguido de Mike Hawthorn, ambos em Ferrari 750 Monza enquanto a Maserati marcaria presença e venceria no ano seguinte com Jean Behra, já de volta à boavista. Como curiosidade refira-se que no ano em que o Grande Prémio de Portugal se disputou em Monsanto a corrida internacional realizada na Boavista adoptou o nome de Grande Prémio do Porto, nome que adoptaria também em 1956, ano em que não se realizou o Grande Prémio de Portugal.


Cartaz do primeiro Grande Prémio de Portugal em Lisboa

O Grande Prémio estaria de regresso no ano seguinte, em 1957 e novamente em Monsanto. O vencedor dispensa apresentações, um senhor argentino chamado Juan Manuel que quando não estava a ganhar mundial de Fórmula 1 andava por aí a correr. Fangio venceu a corrida num Maserati 300S numa prova que contou com outros ilustres como Phill Hill em Ferrari 750 Monza e Alejandro de Tomaso pilotando um OSCA S1500 naquele que seria o último Grande Prémio disputado com carros de Sport. No ano seguinte, as coisas seriam diferentes.


Circuito de Monsanto em 1957

Finalmente a Fórmula 1



Cartaz do Grande Prémio de Portugal de 1958 a contar para o Campeonato do Mundo de Condutores na categoria Fórmula 1

Foi em 1958 que finalmente o Campeonato do Mundo de Conductores se estreou em Portugal. De volta ao Porto, o Grande Prémio de Portugal disputou-se a 24 de Agosto no traçado com 7,4km da Boavista. A prova ficaria na história da Fórmula 1 por várias razões, logo à partida por ter sido uma das primeiras provas a contar para o Mundial de F1 a ter uma mulher na grelha, a italiana Maria Teresa de Filipis aos comandos de um Maserati 250F. De Filipis tinha falhado a qualificação para o Mónaco e fora décima na sua estreia na Bélgica, em ambos inscrita em nome próprio. Na Boavista, faria aquela que seria a sua única prova pela Scuderia Centro-Sud. Infelizmente a prova de de Filipis duraria pouco e a itliana desistiria à sexta volta com problemas de motor no seu Maserati.


Os Fórmula 1 tinham de conviver com os carris dos eléctricos no meio da "pista"


Casimiro de Oliveira inscreveu-se para a prova portuguesa mas depois de testar e perder o controlo numa zona ondulada da pista decidiu não alinhar à partida. Hoje em dia parece algo impensável mas o circuito atravessava zonas de forte ondulação na estrada, ruas em paralelo e até carris de eléctricos! Nem o Herman Tilke se lembraria desta.


Stirling Moss persegue Mike Hawthorn junto ao Castelo do Queijo, no Circuito da Boavista. Pouco depois aconteceria o momento decisivo do campeonato.

Mais na frente, os acontecimentos em pista iriam ter influência decisiva no desenrolar do campeonato e ficariam para sempre na história da Fórmula 1. Mike Hawthorn da Ferrari entrara na Boavista, a nona prova de um total de onze com 6 pontos de avanço para o seu rival da Vanwall, Stirling Moss. Moss venceu e Hawthorn foi segundo antes de ser desclassificado por alegadamente circular em contramão quando tentava voltar à pista após um pião. Moss tinha visto o incidente em pista e dirigiu-se aos comissários para os informar de que a sua decisão estava errada e que Hawthorn não fizera nada de errado. Com base no testemunho do seu colega e rival no campeonato, Hawthorn teve o seu segundo lugar e correspondentes 7 pontos de volta. No final da época Mike Hawthorn sagrou-se campeão… com apenas um ponto de avanço sobre Stirling Moss. No final da temporada foi o fair-play e a seriedade de Moss que garantiram a Hawthorn o seu único título Mundial, poucos meses antes de se retirar com receio dos perigos que a competição representava então. Hawthorn viria a morrer poucos meses depois num acidente de viação.


Dan Guerney no Ferrari Dino no Circuito de Monsanto

No ano seguinte a Fórmula 1 regressaria a Portugal, desta vez ao Circuito de Monsanto. Num campeonato reduzido a nove provas, a portuguesa foi a sétima e disputou-se novamente num dia quente e seco no penúltimo fim-de-semana de Agosto. Pela primeira vez um piloto português estava à partida de uma prova do Campeonato do Mundo: Mário de Araújo “Nicha” Cabral num Cooper-Maserati da Scuderia Centro-Sud. Nicha Cabral qualificar-se-ia em décimo-quarto e iria conseguir terminar em décimo lugar, a 6 voltas do vencedor da corrida, uma vez mais Stirling Moss que liderou a armada da Cooper que colocou 3 Cooper T51 - Climax nas 4 primeiras posições com o Ferrari de Dan Gurney na terceira posição a separar os outros dois Cooper de Masten Gregory e Maurice Trintignant. O líder do campeonato Jack Brabham, também num Cooper, despistou-se à volta 23 mas ainda assim saiu de Monsanto na liderança do Mundial que não iria perder até final do campeonato.


Brabham teria melhor sorte no ano seguinte, e em 1960, novamente entre os paralelos e os carris de eléctrico da Boavista, saiu vencedor do IX Grande Prémio de Portugal. Com apenas os seis melhores resultados da época a contarem para a classificação, a vitória permitiu a Jack Brabham sagrar-se Campeão do Mundo em Portugal quando faltavam ainda disputar duas provas.


Solução para os track limits? Fardos de palha e postos dos eléctricos!

Quanto à corrida, Bruce McLaren foi segundo e garantiu uma dobradinha para a Cooper. Apesar de um violento acidente nos treinos, um jovem Jim Clark iria completar o pódio num Lotus-Climax naquele que foi o primeiro pódio da sua curta mas brilhante carreira. O seu colega de equipa, o campeão do Mundo de motociclismo em título e futuro campeão do Mundo de F1, John Surtees, conseguiu a pole-position naquela que foi também uma estreia para si.


Quanto ao vencedor das duas edições anteriores, Stirling Moss que agora corria nos célebres Lotus de Rob Walker, o herdeiro do império Johnnie Walker, foi desclassificado. Moss tinha estado ausente desde a quinta prova, em Spa-Francorchamps. Nesse fim-de-semana trágico, onde Chris Bristow e Alan Stacey perderam a vida, Moss e Mike Taylor tiveram também violentos acidentes nos treinos que os feriram com gravidade. Stirling Moss fazia o seu regresso em Portugal mas após um pião foi acusado de entrar na pista em contramão e foi desclassificado por isso. Uma ironia suprema para um piloto que apenas dois anos antes, na mesma pista, entregará um campeonato do Mundo ao defender o seu adversário directo numa situação semelhante.


A representação local estaria uma vez mais a cargo de Mário Araújo Cabral que voltou a correr num Cooper-Climax inscrito novamente pela Scuderia Centro-Sud mas a sorte não esteve do seu lado desta vez e abandonaria na volta 38 por despiste.


Quem também iria abandonar era o Grande Prémio de Portugal que se despedia assim, pela primeira vez, do Campeonato do Mundo de Fórmula 1.


Regresso aos Sports-Car e Fórmula 3


A Fórmula 1 deixaria Portugal e o Grande Prémio de Portugal teria mais um pequeno hiato. A corrida seria retomada em 1964 num novo circuito citadino em Cascais e voltando aos carros de sports-car. A prova de Cascais realizou-se pela primeira vez no ano anterior, mas só em 1964 ganharia estatuto de Grande Prémio.Viria a ser ganha por Chris Kerrison em Ferrari 250 GTO seguido dos Lotus Elan de Nicha Cabral e Jorge Peixinho.


Chris Kerrison ao volante do Ferrari 250 GTO no Circuito de Cascais

O Grande Prémio de Portugal correr-se-ia em Cascais nos dois anos seguintes mas com um novo formato agora disputado sobre as regras da Fórmula 3. Introduzida em 1964, a nova Fórmula 3 com motores de 1000cc e 4 cilindros substituiu a antiga fórmula de 500cc que vinha dos primeiros anos do pós-guerra e tentava combater o sucesso de então da Fórmula Júnior. Construtores como a Cooper, Brabham, Lotus ou Tecno dominavam as grelhas e foi precisamente a Cooper que dominou a edição de 65 ao colocar dois carros nas duas primeiras posições para Rodney Banting e John Fenning seguidos do Brabham de Charles Stuart. A Brabham dominaria por completo a edição seguinte enchendo o pódio com três carros com Jurg Dubler, Jihn Fenning e Chris Williams.


Um Cooper T76 semelhante ao que dera a vitória a Rodney Banting no Grande Prémio de Portugal em Fórmula 3, em Cascais

A décima-primeira edição do Grande Prémio seria a última durante quase vinte anos e seria sucedida… pelo quarto Grande Prémio de Portugal!


©2019 by Bandeira Amarela - Podcast. Proudly created with Wix.com

Imagem "sobre nós": https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Pedro_Lamy_-_Imola_1996.jpg

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now