Grande Prémio de Macau

Grande Prémio de Macau

Atualizado: 15 de Nov de 2019


Enquadramento histórico


O Grande Prémio de Macau teve origem em 1954. Entre a sua data de inauguração e 1960 competiam carros desportivos, sendo que a primeira edição ficou desde logo marcada pela presença Portuguesa e a vitória de Eduardo de Carvalho ao volante de um Triumph TR2 (na imagem abaixo). De destacar ainda nesta altura o autêntico desfile de beleza automóvel que se podia testemunhar, Jaguar XKSS, Aston Martin DB3S, Mercedes-Benz 300SL (sim já ganhavam provas), entre outros.


Eduardo de Carvalho ao lado do seu Triumph

A partir de 1961 até 1973 a organização adoptou os regulamentos da Formula Libre, que tal como o nome indica permitiam a participação com diferentes tipos de carros, desde monolugares a carros desportivos, independentemente de serem “open wheel” ou não.

O Grande Prémio ganha também notoriedade na Europa nesta época, e com as novas regras, as construtoras europeias de monolugares começam a interessar-se por participar no evento de Macau.

Surgem assim na lista de vencedores nomes como a Lotus (Lotus 15 na imagem), McLaren, March e BMW.


Lotus 15

Não eram só as construtoras europeias, mas também os pilotos do velho continente começavam a visitar Macau, destacamos aqui um vencedor com um apelido bem conhecido. Em 1966 ao volante de um Alpine T66 vence Mauro Bianchi, avô de Jules Bianchi.


Mauro Bianchi

Chegamos a 1974 onde se introduz um novo conjunto e regulamentos mais uniformizados, a partir desta data e até 1982, o GP de Macau disputa-se segundo as regras da Formula Pacific.


Ricardo Patrese foi o nome sonante deste intervalo de tempo, vencendo o grande prémio por duas vezes, em 1977 e 1978 ao volante de um Chevron B40 e B42 respectivamente. O Italiano viria a competir na F1 ganhando por 6 vezes durante a sua carreira.


1983 representa a última alteração regulamentar do GP de Macau, a partir dessa data entra em vigor os parâmetros pelos quais se rege a Formula 3.

Como primeiro vencedor desta nova era, Ayrton Senna ao volante de um Ralt RT3 com motor Toyota.



Ralt RT3 de Ayrton Senna

Por lá passaram outros nomes sonantes, dos quais destacamos os vencedores, Michael Schumacher, o seu irmão Ralf, David Coulthard, Takuma Sato, Edoardo Mortara e Mike Conway. Este último tem a particularidade de ter oferecido a única vitória no circuito da Guia a Kimi Raikkonen, ainda que na categoria de director de equipa da Räikkönen Robertson Racing.


Os Portugueses


Também eles são presença assídua no circuito da Guia. Eduardo de Carvalho como já foi referido esteve na prova inaugural e foi o primeiro vencedor do grande prémio.


Certamente existirão mais do que aqueles que vamos aqui nomear, infelizmente não tivemos acesso a todos os resultados ao longo dos anos, por isso deixamos aqui o enquadramento das participações lusas a partir de 1983, bom na verdade é em 1988 que começa a história.


António Simões representou a cores nacionais em 1988 e 1989. Na sua primeira participação foi colega de equipa de Eddie Irvine, num grande prémio que contou com Damon Hill em 2º lugar. Infelizmente em ambas ocasiões não chegou ao fim.

1990 contou com Pedro Matos Chaves, o piloto não conseguiu terminar a prova, desistindo a 3 voltas do fim.


Dois anos depois, são dois os pilotos Portugueses na grelha, Pedro Lamy (na foto abaixo o Reynard 923) e Diogo Castro Santos. Na primeira corrida, Lamy foi 2º e fez a volta mais rápida, ficando também em 2º à geral com a combinação dos resultados das duas mangas.


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Melhor do que nós será certamente o testemunho de um dos intervenientes. Estivamos à conversa com Pedro Couceiro, que participou em duas edições da prova.


Chegamos a 1994 e 1995 e à vez de Pedro Couceiro representar Portugal. Aqui não deixamos apenas uma breve menção aos seus resultados até porque, muito amavelmente o Pedro esteve à conversa connosco para nos transmitir as sensações de estar no GP de Macau e como se vivia o automobilismo na década de 90.


A conversa começa connosco a tentar explicar o que é o Bandeira Amarela, reparem que estamos a falar com um dos grandes nomes do automobilismo Português, enquanto que o Bandeira Amarela existe há pouco mais de meia dúzia de meses, mas felizmente rápido se começa a falar de desporto motorizado. É fácil perceber que é uma conversa de apaixonados, de tal forma que constantemente tínhamos que nos relembrar de tomar notas, afinal o teor da conversa seria o conteúdo de ouro deste artigo.


Em 1990, Pedro Couceiro sagrava-se campeão nacional de Formula Ford, categoria que impulsionou não só a sua carreira mas também de vários pilotos Portugueses - “A Formula Ford criou um boom de pilotos e o caminho a seguir naquela altura era simples a partir desse momento Formula Ford - Formula Opel - F3 - F3000 - F1”.


91, 92 e 93 são os anos da internacionalização onde competiu na Formula Opel. O início foi auspicioso e no final da primeira temporada já lutava pelos lugares cimeiros e assim seguiu para a época de 1992, juntando vitórias a essas presenças nos pódios. O último ano da Fórmula Opel, contudo foi marcado por alguns abandonos que o impossibilitaram de lutar pelo título.


Isto leva-nos até 1994 e à Formula 3 Alemã. Pedro Couceiro não era piloto oficial Opel, mas esteve na luta pelo título a par dos pilotos oficiais da marca, Ralf Schumacher e Alexander Wurz, assim como de Jörg Müller (piloto da FIAT). No final deste ano termina a sua relação com a marca alemã e junta-se à equipa RSM Marko, que equipava motores FIAT, para ser companheiro de equipa de Jörg Müller no GP de Macau.


A prova no circuito da Guia era a sua primeira aventura fora da Europa, e por isso a primeira pergunta foi mesmo nesse sentido, qual era o significado e o impacto de competir no mítico grande prémio.


Para o então rookie impressionou “a corrida de vedetas, o GP de Macau naquela altura era o sítio onde todos os jovens promissores competiam”. Para além disso o circuito da Guia marca pela sua dificuldade, tal como nos testemunhou - “o traçado é muito difícil, e a qualidade dos pilotos não permite o erro, se os cometes, ou estás fora no muro, ou a ser ultrapassado”. O factor emocional fazia-se sentir também devido aos outros eventos - “nas corridas das motos não era anormal acidentes graves e mortais, depois tínhamos que competir a seguir, o sentimento era ampliado pelos rituais típicos da região, e muitas vezes passávamos nas zonas dos acidentes que estavam decoradas com flores”.


A primeira tentativa do piloto Português não correu da melhor forma não tendo terminado a prova em 1994, o carro também não era competitivo - “a Fiat não apostou no motor e por isso o carro não estava à altura dos monolugares equipados com motor Opel” - e mesmo o seu companheiro de equipa, vencedor da edição de 93 não conseguiu o melhor dos resultados. Tanto nesse primeiro ano como no seguinte participou pela RSM Marko, equipa de Helmut Marko que viria a dar origem ao programa RedBull Junior.


Quisemos saber se já era possível deslumbrar o gigante que Dr Helmut Marko estava a criar. “Já naquela altura o Marko era um “fazedor” de pilotos, o Müller, Wendlinger vinham do seu programa”. Entre algumas trocas de palavras pinta-nos a imagem do automobilismo em Portugal - “na década de 90 fomos nós (ele, Pedro Lamy, Manuel Gião, Pedro Matos Chaves, João Barbosa) que abrimos as portas a esta geração (Álvaro Parente, Filipe Albuquerque, António Félix da Costa), naquela altura ligávamos a alguém como o Marko, dizíamos os patrocínios que tínhamos e tentávamos competir, era difícil chegar lá cima” - para além disto ajudaram a pintar uma nova imagem do piloto Português - “hoje em dia um piloto Português no paddock já é olhado de uma forma distinta, algo que não acontecia na década de 90, e não sendo fácil lá, conseguimos desde então pelo menos meter o pé na porta”- para que possamos ter uma noção das dificuldades para um piloto chegar ao topo do desporto motorizado, partilha também alguns números - “todos os anos haviam mais 30-40 pilotos Brasileiros, Portugueses? Apenas um”. Pedro Couceiro era um desses pilotos, e não esconde o orgulho (e bem) na sua carreira - “tive oportunidade de competir com Ralf Schumacher, Wurz, Fisichella, Jarno (Trulli), Helio Castroneves, Tom Coronel, entre outros” - estes são os que foram ditos de memória, são bastantes mais com carreiras longas e cheias de sucesso, o que demonstra também a qualidade do nosso conterrâneo. A testemunhar isso está o seu currículo não só nas fórmulas mas também nos GTs.


Aproveitamos a deixa e perguntamos que piloto lhe saltava à vista naquela altura - “Jörg Müller (que foi seu colega de equipa) sem dúvida um deles, e recordo-me de Gonzalo Rodriguez, que infelizmente depois teve aquele trágico acidente em Laguna Seca”. Gonzalo Rodriguez perdeu a vida num acidente no famoso “saca rolhas” em 1999.


Voltamos ao GP de Macau e à edição de 1995, o resultado final desta feita foi o 8º lugar, um ano que ficou marcado pelo grande acidente logo no inicio da segunda manga, e como tal apenas foram considerados os resultados da primeira, recorda Pedro Couceiro - “1995 fiz uma boa prova, na segunda manga tivemos aquele grande acidente, eu consegui passar e salvo erro ia em 6º, mas a prova foi cancelada. Assim terminei 8º na geral, resultado que saiu apenas da primeira manga”.


Por fim aproveitamos a oportunidade para fazer uma pergunta já fora do tema, e assim sendo questionamos qual é a sensação de ser piloto de Safety Car do WEC, tendo António Félix da Costa e Filipe Albuquerque, logo ali atrás, que até já partilham o pódio - “é engraçado, eu sou manager do Filipe, e já aconteceu tê-lo logo atrás de mim, há ali uma fracção de segundo em que penso em dar-lhe sinal, mas temos que manter o profissionalismo, não me posso distrair nem distraí-lo a ele”- mas nem tudo é bom mesmo neste papel - “nas 4H de Portimão, no final quem acaba por tirar a vitória ao Filipe é o Safety Car, que eu conduzia…” - elabora também o inicio da carreira destes dois pilotos - “recordo-me de os ver ainda pequenos e os primeiros passos no karting, e de ajudar o Filipe nas várias etapas da sua carreira”.


No fim entre risos aborda esta sua nova função - “Quando o Tarquini ou o Coronel me questionaram o que estava ali a fazer quando fui piloto do SC no WTCR respondi-lhes “sempre vos disse que ía acabar a minha carreira à vossa frente””.


Não foi, como é perceptível uma entrevista, simplesmente uma conversa que seguiu algumas linhas guia. Podem e devem acompanhar o trabalho que o Pedro Couceiro faz pela Unicef e as suas acções sociais através da banda desenhada Sonho Sem Fim .


A nós cabe-nos agradecer o tempo que nos disponibilizou e a agradável conversa que foi possível partilhar com ele.


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Voltamos à nossa viagem cronológica pelo GP de Macau e a presença dos Portugueses.


André Couto é outro nome que consta nos registos, e embora tenha participado em várias edições com licença Portuguesa, fruto da relação entre Portugal e a comunidade autónoma, vive em Macau desde os seus 4 anos, e como tal considera-se Macaense. Ele que em 2000 viria a completar o seu sonho de vencer a prova e assim tornar-se vencedor do seu GP de casa, já com licença de Macau, um ano após a entrega da região à China pelo Estado Português. Ao todo foram 6 participações de André Couto na prova do circuito da Guia, algumas das quais com uma equipa bem conhecida, a Prema.


A Mild Seven Benetton KMS para 1996 levava Jarno Trulli e Rui Águas para o ataque ao circuito da Guia. Jarno conseguiu chegar ao pódio, infelizmente para as cores lusas Rui Águas desistiria de prova.


De 1998 a 2001 coube a tarefa a Tiago Monteiro de defender a bandeira, foram 4 presenças na prova raínha do evento tendo conseguido um 9º lugar como melhor resultado em 2000. Tiago Monteiro viria a vencer em Macau em 2016 mas a contar para o WTCC. Relevante ainda o facto de ter partilhado a pista com Yuji Ide em 2001, um aspecto de elevado carinho para o Podcast Bandeira Amarela.


Em 2002 a Prema apresentava um Português ao volante de um dos seus monolugares, César Campaniço viria a terminar a prova em 10º lugar.



Já em 2003 a fazer companhia a César Campaniço veio Álvaro Parente, infelizmente neste ano nenhum dos dois terminou a prova.


Sorte essa que se veio a repetir para Parente em 2004, numa grelha cheia de estrela e na qual constavam Hamilton, Rosberg, Kubica, entre outros nomes sonantes.


Depois foi preciso esperar até 2010 para vermos outro Português a acelerar até ao Hotel Lisboa. António Felix da Costa à primeira tentativa fazia o 6º posto, curiosamente logo à frente do seu colega de equipa na Carlin, Jean Eric Vergne, que é agora seu colega de equipa na Formula E.


Em 2011 o cascalense volta com o objectivo de melhorar a sua marca, começava bem com o 3º lugar na qualificação, mas não viria a terminar a prova.


À terceira foi de vez, depois de se qualificar em 2º, vence a corrida à frente de Rosenqvist, Alex Lynn e em 4º lugar Pascal Wherlein.


Chegamos a 2013 e mais um pódio para António Félix da Costa, desta feita 2º classificado, em 1º Alex Lynn e 3º Pipo Derani (colega de equipa de Filipe Albuquerque para 2020 no IMSA).


Parecia que havia chegado ao fim as participações de da Costa, até que em 2016 temos a agradável surpresa de o ver a competir novamente no GP de Macau. Como se não fosse suficiente, vence pela segunda vez a prova.



Três anos depois e ainda não voltamos a ter nova presença lusa no circuito da Guia, o panorama não parece fácil. Quem poderá ser o próximo? Frederico Peters, Noah Monteiro, Maria Neto, Mariano Pires, Martim Fidalgo, Matilde Fidalgo, Salvador Trindade, Guilherme Oliveira. Arriscam mais algum?


O circuito da Guia



Olhar para o circuito da Guia, moldado pelas ruas da cidade do sol, é olhar para a história, tal como fomos referindo neste artigo. O traçado é mítico, os pilotos que por lá passaram míticos são. Toca-nos muito perto a nível emocional, até porque hoje em dia é o único sítio podemos ler a letras garrafais e em Português “Grande Prémio de Macau”, e aí temos que agradecer à Cidade do Sol.


Diz quem lá correu, e foram muitos e de renome que é provavelmente o circuito que mais exige a um piloto, sobretudo a nível de concentração, um erro não é perdoado pelas barreiras que percorrem o circuito, aqui qualquer falta de atenção paga-se caro e a montra é ao nível mundial, não fosse este um dos grandes prémios mais importante do automobilismo.


O traçado apresenta vários pontos característicos, desde a largada não se trava até à curva Lisboa (assim chamada devido à presença do Hotel Grande Lisboa), cena do acidente de Sophia Floersch o ano passado.


Depois uma zona muito técnica com destaque para a curva da Maternidade e os “Ss” da solidão (Português fadista quase). Mais à frente temos a curva D. Maria que antecede a curva Melco, a zona mais estreita do circuito apenas com 7 metros.


Depois mais dois nomes que ressonam na mente dos amantes do automobilismo, a recta e curva dos Pescadores e a curva R.


O mais bonito de escrever tudo isto? Não foi preciso qualquer tradução!


GP de Macau 2019


Finalmente chegamos a 2019. Novamente Macau é o palco das estrelas do futuro, e há um dos pilotos que pode inclusive bater um record.


Dan Tickum, recentemente rejeitado pelo programa da RedBull pode ser o primeiro piloto a vencer 3 vezes consecutivas no circuito da Guia. Ticktum tem tido uma carreira de altos e baixos, um piloto promissor com o destino praticamente traçado, mesmo após o incidente onde ultrapassou meio pelotão em condições de Safety Car para bater com o carro noutro piloto, destacou-se perante o olhar de Helmut Marko, e após uma temporada em que é vice-campeão da F3 acaba por não conseguir mostrar o seu talento na Super Formula Japonesa, o que levou à sua saída do programa da equipa Austríaca. Vê talvez aqui em Macau uma oportunidade de fazer história, e lançar a sua temporada de 2020 possivelmente com a equipa que defende nesta prova, a Carlin.



Dan Ticktum

Falar de qualquer prova de F3 e não falar da armada Prema, é o mesmo que pedir uma francesinha sem batatas. Aqui não será diferente, e os pilotos da Prema têm um objectivo em mente, a prestigiada vitória em Macau. Shwartzman (campeão F3), Armstrong e Vesti (que substitui o recém-operado Daruvala) constituem a equipa que irá atacar as ruas da cidade do sol para terminar em beleza uma época repleta de vitórias.


Sophia Floersch será também ponto de destaque para a equipa HWA Racelab, a piloto já tem experiência do traçado, mas psicologicamente estará recomposta do grave acidente que sofreu na curva Lisboa? Sophia tem mostrado rasgos de talento e prestações promissoras, esperemos que nos deslumbre com uma boa condução nesta edição do GP.


O melhor “não Prema” no campeonato foi Vips, o Estónio que conta com o apoio da RedBull chega a Macau com o mesmo objectivo que teve durante a época mas que não alcançou, ser o melhor à geral. O seu futuro passa pelo programa da RedBull, mas qual será a categoria, F2 ou Super Formula?


A ART e a Sauber Junior Team by Charoux, terão certamente uma palavra a dizer, destacamos em cada uma das equipas respectivamente Christian Lundgaard e Callum Illiot, dois pilotos a ter em atenção no circuito citadino.


Juan Manuel Correa ao volante de um dos carros da Sauber Junior Team by Charoux

Como nota final, deixamos aqui a lista de inscritos, mencionando ainda Pulcini, Tsunoda, Beckmann, David Schumacher e Enzo Fittipaldi.

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Imagem "sobre nós": https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Pedro_Lamy_-_Imola_1996.jpg

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