Equipas falhadas: #5 Life Racing Engines - tudo errado

Equipas falhadas: #5 Life Racing Engines - tudo errado

Há projectos que nascem bem, reúnem um bom número de apoios, juntam um bom conjunto de pessoas para os seus quadros, têm uma estratégia bem definida mas por algum motivo em particular ou uma série deles nunca conseguem atingir os objectivos a que se propunham.



Em 2009 o L190 voltou à vida em Goodwood com Derek Bell ao volante. O carro estava em melhor condição do que quando era novo.


A Life claramente não tinha nada disso. Foi um projecto mal nascido e que teve um final dentro desse espírito. A Life Racing Engines nasce de uma ideia do italiano Ernesto Vita (o nome da equipa é a tradução de Vita para inglês) que viu uma oportunidade de negócio com o fim da era turbo. Nessa altura, uma série de pequenos fabricantes de motores aproveitou a oportunidade para entrar na Fórmula 1 (como a Judd, Ilmor, Motori Moderni (com a marca Subaru) ou a Yamaha) com novas ideias e diversos conceitos surgiram: V12, V10, flat-12.


Vita pegou num projecto do ex-engenheiro da Ferrari, Franco Rocchi, para desenvolver um motor W12. Na teoria, a grande vantagem do W12 face a um convencional V12 seria o seu menor atravancamento, isto é, seria bastante mais compacto que um V12. Os planos eram os de obter a mesma potência de um V12 ocupando o mesmo espaço que um mais compacto V8. A idea de Vita era então a de fabricar o motor e de o vender a construtores estabelecidos. Dinheiro fácil, pensou ele. Comprou os direitos do W12 a Rocchi e durante 1989 tentou, sem sucesso, encontrar um parceiro que o utilizasse. Sem conseguir encontrar um carro para o seu motor, Vita decidiu inscrever ele próprio um carro para fazer correr o W12. Para isso, comprou a First Racing a qual havia desenvolvido e abandonado um monolugar para a Fórmula 3000 (sim, não é engano). Nascia assim a Life Racing Engines. Com o chassis da First (agora renomeado Life L190) equipado com o F35 W12 a equipa estava pronta a estrear-se em Phoenix, na abertura da temporada com Gary Brabham, filho de Jack Brabham, ao volante.



O famoso W12


À partida para a temporada de 1990 a Life tinha apenas um chassis, apenas um motor e apenas algumas peças suplentes. Com 375cv e aproximadamente metade da potência dos Honda e Renault, o Life era claramente o menos potente do plantel. Algumas fontes são mais generosas e apontam para um valor na casa dos 450cv, ainda assim, muito pouco. Para ajudar, o carro era também o mais pesado com 530kg. Este conjunto nunca resultou e logo na primeira corrida o carro teve problemas e ficou a 35 segundos do melhor tempo… da pré-qualificação. No Brasil nem chegou a completar uma volta e Brabham abandonou o projecto. Diz a lenda que os mecânicos ter-se-iam esquecido de colocar óleo no motor e o carro veio para a pista completamente a seco e rapidamente gripou. Com dificuldades em encontrar um piloto que aceitasse correr no L190, Ernesto Vita contratou Bruno Giacomelli que já não fazia um Grande Prémio desde 1983, há quase sete anos a troco de 30000$ por corrida. Honra seja feita a Vita que mesmo com todas as falhas que a equipa tinha, nunca deixou de pagar aos pilotos e mecânicos. Em Imola o carro completou uma única volta na pré-qualificação com a caixa presa em terceira velocidade ficando com um tempo de 7:16:212. Giacomelli diria no fim da sessão que vinha com medo de ser atingido por trás devido à lentidão do seu carro. No Mónaco conseguiu finalmente completar uma volta sem problemas mas ficou a mais de doze segundos do primeiro pré-qualifcado. Se quisermos medir a distância para a pole de Ayrton Senna, temos que acrescentar mais seis segundos… O tempo de Giacomelli era semelhante ao dos Fórmula 3 que também correram no Mónaco nesse fim de semana – dito de outra maneira, era mais lento que um Fórmula 3000.


Durante o resto da temporada o cenário não se alterou com Giacomelli a ser entre 15 e 25 segundos mais lento que o melhor pré-qualificado nos Grandes Prémios em que conseguiu realizar algumas voltas.


Finalmente, após o Grande Prémio de Itália, Ernesto Vita desistiu do seu W12 e optou por um Judd V8 semelhante aos que a Lotus utilizou na temporada de 1989. No entanto, isto não resolveu os problemas da equipa. Ao montarem o carro, descobriram que o novo motor não cabia com a cobertura de motor actual. Tiveram que modificar a cobertura rapidamente mas o serviço foi mal feito e durante a primeira volta no circuito do Estoril, a cobertura do motor simplesmente voou. A Life ainda se apresentou na corrida seguinte em Espanha mas abandonaria o Mundial antes das duas últimas corridas.



Rara imagem de um Life em pista. Aqui, no Estoril, Giacomelli com a cobertura marreca ainda antes dela voar


Como balanço desta curta participação no Mundial de Fórmula 1, ficam catorze entradas em Grandes Prémios, zero qualificações, zero pré-qualificações. Foi a equipa que participou em mais Grandes Prémios sem nunca se conseguir qualificar (nem pré-qualificar). Um registo notável que muito provavelmente nunca será batido.


TL, DR: italiano compra projecto de motor inovador a ex-engenheiro da Ferrari e coloca-o a correr num chassis adaptado de Fórmula 3000. O carro é assustadoramente lento e pouco fiável, consegue andar ao nível dos Fórmula 3, nunca se consegue pré-qualificar e acaba por desaparecer ao fim de 14 corridas.

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Imagem "sobre nós": https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Pedro_Lamy_-_Imola_1996.jpg

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