Equipas falhadas #4 - Jaguar Racing: faltaram asas

Equipas falhadas #4 - Jaguar Racing: faltaram asas


British Racing Green e jantes douradas. O que há para não gostar no Jaguar R1?

A Ford era uma presença constante e bem sucedida nas grelhas do Mundial de Fórmula 1 há mais de trinta anos. Sempre como fornecedores de motores e em parceria com a Cosworth (que acabou por integrar o universo da oval azul), a marca americana foi uma das mais bem sucedidas de sempre na história da modalidade com 175 vitórias, 13 títulos de pilotos e 10 títulos de construtores em parceria com gente tão ilustre como a Lotus, Mclaren, Williams, Benetton, Tyrrel, Brabham e Matra.


Entretanto, o ex-campeão do Mundo Jackie Stewart e o seu filho Paul gerem uma bem sucedida equipa em fórmulas de promoção como a Fórmula 3 e a Fórmula 3000. A meio da década de ‘90 surge uma possibilidade de darem o salto para a Categoria Rainha que se viria a concretizar durante o ano de 1996 após conseguirem o apoio da Ford para correrem como equipa de fábrica do gigante americano a partir do ano seguinte.


A equipa estreia-se então em no Mundial de 1997 como Stewart Grand Prix. Depois de um começo na segunda metade do pelotão, a equipa rapidamente foi melhorando e em 1999 é presença regular nos pódios, chegando finalmente às vitórias por Johnny Herbert num caótico Grande Prémio da Europa em Nurburgring, numa corrida onde Barrichello levou o segundo Stewart ao terceiro lugar do pódio. No final da época, a equipa conseguiu um brilhante quarto lugar nos Mundial de construtores, à frente de nomes fortes da época como a Williams e a Benetton e atrás apenas de Mclaren, Ferrari e da melhor Jordan de sempre.



Tudo começou com a Stwart Grand Prix. Após a Ford assumir o controlo da equipa o rumo alterou-se um pouco...


O crescente sucesso da Stewart chamou a atenção da Ford que decidiu comprar a equipa, era uma equipa já bem estabelecida, com bons pilotos e já capaz de lutar por vitórias. Era a oportunidade da Ford de finalmente entrar com um equipa em nome própria. No final de 1999 a Ford assume o controlo da Stewart Grand Prix… e aí estragou tudo.


Estávamos no final dos ano 90 e a Ford detinha um portfólio considerável de marcas (Ford, Lincoln, Volvo, Jaguar, Land Rover, entre outras). O grupo decidiu que em vez de correr com o nome Ford iria utilizar a sua equipa de Fórmula 1 para promover uma destas marcas, a Jaguar, como marca de luxo desportivo. A mudança de dono não trouxe apenas um novo nome para o lugar do icónico Stewart (a equipa era recente mas o nome tinha uma longa ligação à disciplina) mas trouxe também mudanças na gestão da equipa. Jackie Stewart optou por sair mas Paul Stewart inicialmente manteve-se na saída para sair após as primeiras corridas do ano 2000 devido a graves problemas de saúde. Curiosamente, durante todos estes anos de envolvimento da Ford com a Fórmula 1, os seus motores sempre foram inscritos com o nome Ford mas agora que detinham uma equipa os motores passaram a ser baptizados simplesmente de Cosworth para não ferir susceptibilidades - afinal, quem é que quer um Jaguar com motor Ford?


Para a época de estreia a Jaguar manteve Johnny Herbert, que conseguiu a única vitória da Stewart e fez uma troca com a Ferrari: Barrichello seguiu para Maranello e de lá receberam o então vice-campeão mundial, Eddie Irvine. A Ford estava a investir muitos milhões na “nova” equipa e objectivo eram as vitórias e os títulos e por isso era preciso um piloto que já mostrara ser capaz de lutar por eles.


Tudo pronto, há dinheiro, há pilotos… não há resultados. A primeira época foi um desastre. A única qualidade do Jaguar R1 era o seu aspecto numa decoração em British Racing Green que se tornou icónica e imagem de marca da equipa durante a sua passagem pela F1. Infelizmente a imagem ainda não dá pontos na Fórmula 1 e o R1 falhava em tudo o resto - era lento e pouco fiável. Após as duas primeiras rondas ainda nenhum dos carros verdes tinha chegado ao fim de nenhuma prova, o que só viria a acontecer em Imola mas fora dos pontos. Os pontos foram escassos e só à sétima ronda Eddie Irvine conseguiu um quarto lugar nas ruas do Mónaco. A equipa só viria a voltar a pontuar, novamente pelo irlandês, na última prova, na Malásia. Para Johnny Herbert foi a sua pior época de sempre na Fórmula 1, sem pontuar, e retirou-se no final do ano. A Jaguar ficou-se pelo 9º lugar num plantel com 11 equipas, apenas à frente da Prost (que só iria sobreviver mais um ano) e da sempre aflita Minardi, ambas sem pontuar. Ficaram atrás de equipas com muito menos recursos como o Arrows ou a Sauber.


Recorde-se que a Ford comprou uma pequena equipa que funcionava bem, batia-se com os melhores e com equipas com muitos mais recursos do que ela, ganhava corridas e injectou-lhe muitos milhões e o resultado foi uma queda abrupta para o final do pelotão. Obviamente que rolaram cabeças e houve uma profunda remodelação directiva com Bobby Rahal a vir do outro lado do Atlântico para liderar a equipa.


Com a saída de Herbert, a Jaguar promoveu o jovem Luciano Burti mas o brasileiro só iria aguentar as quatro primeiras provas do ano, sendo substituído por Pedro de la Rosa a partir da prova espanhola. Os resultados não foram muito melhores do que no primeiro ano, Irvine pontuou novamente por duas vezes e de la Rosa outras duas. Destaca-se aí o primeiro pódio da Jaguar com Irvine a conseguir novamente um bom desempenho no Mónaco e a levar o Big Cat ao terceiro lugar do pódio. No final, um modesto oitavo lugar à frente novamente de Prost (que não voltaria em 2002), Minardi e agora também da Arrows. Muito pouco para quem pretendia lutar por títulos.



O R2 não trouxe grandes melhorias face ao R1 mas ainda permitiu à Jaguar obter o seu primeiro pódio.


Entretanto, a meio da época de 2001 dá-se uma entrada muito relevante na equipa: Niki Lauda juntava-se a Bobby Rahal para liderar a equipa. Talvez tenha sido um dos primeiros sinais visíveis das interferências corporativas que acabariam por matar a equipa, dois galos para um poleiro não costuma correr bem e desta vez não foi excepção. As histórias de bastidores raramente são muito claras mas a versão mais corrente é de que Lauda terá desempenhado um papel decisivo em pressionar Rahal para fora da equipa para assumir o lugar de Team Principal. Para isso, muito terão contribuído dois “erros” de Rahal: em primeiro lugar, a tentativa falhada de ir buscar Adrian Newey à Mclaren (Rahal garante que o acordo existiu e que terá sido Ron Dennis à última a segurar Newey) e o outro foi o de tentar vender Eddie Irvine à Jordan para a temporada de 2002.


Rahal acabou por ser mesmo afastado da Jaguar. Curiosamente, Irvine acabou por ser afastado pela equipa no final de 2002 devido à crescente fricção entre este e a Jaguar devido à falta de desempenho e fiabilidade do carro e Newey rumaria mesmo a Milton Keynes em 2006 para o futuro “patrão” do que era a Jaguar…


Com Lauda à frente dos destinos da equipa o facto mais relevante de 2002 ocorreu logo nos testes em Valência… quando o próprio Lauda foi para a pista aos comandos do R2 da equipa. Niki disse na altura que o objectivo do teste era perceber o funcionamento dos sistemas electrónicos de então e ajudar no desenvolvimento do carro. Infelizmente não serviu de muito e o Jaguar R3 revelou-se uma vez mais lento e pouco fiável. Nas 17 corridas os dois carros de Irvine e de la Rosa combinados desistiram por 19 vezes. O espanhol nem sequer pontuou e Irvine evitou males maiores com um terceiro lugar (o segundo e último pódio da Jaguar). No final do ano, o saldo foi um sétimo lugar nos construtores, Irvine saiu em ruptura com a equipa e de la Rosa juntou-se à McLaren como piloto de testes.



Niki Lauda com 52 anos ao volante do Jaguar R2 nos testes em Valência. Fonte da imagem: crash.net


Entretanto, a Ford começava a ficar impaciente com a sua equipa e a sua falta de resultados. Muitos milhões haviam sido investidos para nada. Qual a melhor maneira então de melhorar uma equipa que luta com falta de resultados? Cortar consideravelmente o orçamento e assim fizeram os homens de Detroit. Para reduzir custos, cerca de 70 elementos da equipa foram dispensados, entre eles, o Director da Equipa, Niki Lauda. Para fechar o assunto, a Ford deu à Jaguar dois anos para mostrar resultados ou acabava-se o projecto.


Em 2003 a Jaguar apresentou uma nova dupla - Mark Webber e Antônio Pizzonia. Novamente o R4 era lento e pouco fiável (começa a soar repetitivo) mas Webber conseguio alguns resultados interessantes e, fruto também do novo sistema de pontuação que distribuía pontos até ao oitavo lugar, tornou-se regular nos pontos (quando o carro chegava ao fim da corrida). Pizzonia não conseguiu qualquer ponto em 11 corridas e foi substituído pelo malogrado Justin Wilson para as últimas 5 corridas da temporada. Wilson, após três DNF, conseguiria o seu único ponto na Fórmula 1 com um oitavo lugar em Indianápolis. O saldo final, foi novamente muito curto e traduziu-se noutro sétimo lugar nos construtores.


Chegamos ao último ano do último da Ford: 2004 era o ano do tudo ou nada para a Jaguar. Para ajudar, Detroit decidiu novamente cortar o orçamento da equipa e sugeriram aos homens agora liderados por John Hogan que arranjassem um piloto pagante para completar o orçamento da equipa. Esse homem acabaria Christian Klien que entrou para a equipa com o apoio da Red Bull mas a única coisa que trouxe foi mesmo dinheiro. Pontos, apenas um sexto lugar em Monza. Webber, quando conseguia terminar as corridas, mostrou-se muito mais competitivo e regular e trouxe a maior fatia de pontos para casa. Ainda assim, o R5 revelou-se uma vez mais um desastre e saldou-se por mais um sétimo lugar final e quase metade dos pontos da época anterior.


No final da época, a Ford cumpriu a promessa: era o fim da linha para a Jaguar Racing e desistiu completamente da Fórmula 1. O nome Ford havia voltado ao pelotão da Fórmula 1 em 2003 através de uma parceria com a Jordan em que a equipa irlandesa corria com motores idênticos aos da equipa oficial mas com a marca Ford. Nem esse acordo sobreviveu à decisão do construtor da Oval Azul.



No GP do Mónaco 2004 a Jaguar utilizou uma decoração especial para promover o filme "Ocean's Twelve". Para além disso, cada carro tinha um diamante de 300mil dólares incrustado no nariz. Klien bateu na primeira volta e o diamante nunca mais foi visto...


Em Novembro de 2004 foi anunciado o desfecho desta história: a Ford vendeu a Jaguar Racing à Red Bull por apenas 1£ a troca da promessa dos austríacos investirem 400 milhões de libras durante os próximos três anos na equipa, salvando assim cerca de 400 empregos e mantendo a equipa na grelha. Quanto à Cosworth, foi vendida aos então donos da CART assim se mantendo até hoje. Continuou o seu envolvimento na Fórmula por mais alguns anos até ficar sem clientes, voltando em 2010 por mais quatro temporadas com as novas equipas e saindo novamente com elas. Quanto à Jaguar Racing, agora nas mãos da Red Bull, rapidamente se tornou mais competitiva embora curiosamente se tenha mantido em sétimo lugar dos construtores durante mais duas épocas. Em 2009 finalmente encontraram o caminho do sucesso e conseguiram aquilo que a Ford e a Jaguar nunca conseguiram: encontrar o caminho das vitórias. Nesse ano foram segundos no Mundial de Construtores e seguiram-se quatro anos de domínio absoluto dos mundiais de pilotos e construtores. Hoje a Red Bull Racing continua a ser uma das forças dominantes da Fórmula 1. A Jaguar foi vendida pela Ford à Tata em 2008 e apenas voltou ao desporto automóvel na Fórmula E.



O habitat natural deste felino: na escapatória de um circuito. Aqui, em Interlagos, Webber observa mais uma corrida de fora. O R5 foi a última tentativa da Jaguar.


A história da Jaguar Racing é mais um exemplo de que nem sempre uma quantia avultada de dinheiro é o suficiente para tornar uma boa equipa numa equipa bem sucedida e de como a má gestão pode destruir uma equipa ganhadora.



Após a saída de cena da Jaguar e da Ford, a equipa deu lugar à Red Bull Racing. Os resultados são bem conhecidos de todos.


TL, DR: grande construtor mundial (Ford) compra pequena equipa privada que conseguiu alcançar algum sucesso. Ford gere a equipa de uma forma demasiado corporativa e a equipa perde-se em burocracias. Após muitos milhões gastos e resultados no fundo da tabela, Ford vende equipa a fabricante de bebidas. Fabricante de bebidas em poucos anos faz da equipa Campeã do Mundo.

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Imagem "sobre nós": https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Pedro_Lamy_-_Imola_1996.jpg

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