Equipas falhadas #1: Toyota Racing - não basta despejar milhões

Equipas falhadas #1: Toyota Racing - não basta despejar milhões

Atualizado: 12 de Nov de 2019

Chegamos finalmente ao fim da nossa contagem de construtores falhados na Fórmula 1. Muitas outras histórias haverá para contar, afinal numa categoria onde muito poucos conseguem ser bem sucedidos, todas os anos há histórias de insucesso. Se a Toyota foi uma equipa pior que comédias que passaram por aqui como a EuroBrun, a Life ou a Andrea Moda? Claro que não mas os recursos disponíveis não são sequer comparáveis. A Toyota é um construtor que estamos habituados a ver ser bem sucedido (recorde-se que acabaram de se sagrar campeões do Mundo de rallys) por isso face ao historial e aos recursos as expectativas eram grandes. E quando as expectativas são grandes, a desilusão é maior. Mas vamos à história que é para isso que aqui estamos.


Panasonic Toyota Racing


Imagine-se o maior fabricante mundial de carros. Imagine-se que esse fabricante detém uma infraestrutura de topo para competição automóvel em Colónia, na Alemanha, com um historial de sucesso nos rallys e na resistência* e que esse fabricante decide agora tentar a sorte na categoria que lhes falta no currículo, o topo do desporto motirzado: a Fórmula 1.

Durante um ano a Toyota testou exaustivamente o AM-01, depois rebaptizado TF101, em pistas por todo o Mundo.

Imagine-se também que esse fabricante consegue acordos fortes com grandes empresas para patrocínio e que está disposto a gastar somas infinitas de dinheiro para atingir o sucesso. Imagine-se até que esse fabricante se dava ao luxo de pagar 11 milhões de euros para adiar por um ano a sua entrada no Mundial de F1 e poder testar livremente em quase todos os circuitos do calendário durante esse ano. Em teoria, estamos a descrever o processo de criação de uma equipa dominadora da Fórmula 1. Na prática, foi muito longe disso. O que é certo, é que foi assim o arranque da aventura da Toyota na Fórmula 1.


O gigante japonês baseou-se no então TTE (Toyota Team Europe), o braço do desporto motorizado europeu de onde saiu a equipa tricampeã do mundo de rallys e que ficou muito perto da vitória nas 24h de Le Mans (havia de lá chegar mas foi preciso esperar mais de dez anos) para tentar a vitória na categoria máxima do desporto automóvel. Para a estreia na Fórmula 1 a equipa contratou Allan McNish e Mika Salo. McNish migrou do programa GT-One de resistência e Mika Salo foi contratado por conseguir comunicar em japonês. Aliás, os problemas de comunicação entre a estrutura no Japão e na Europa foram sempre apontados como uma das principais causas para o fracasso do programa mas os problemas eram muito mais do que problemas linguísticos.


A Toyota preparou a entrada testando intensivamente durante dezanove meses. Utilizaram onze circuitos do calendário do Mundial (ficaram de fora pistas como Melbourne, Mónaco ou Montreal que, por serem citadinos, não era possível utilizarem) e em Paul Ricard (então apenas uma pista especial de testes com muitas riscas) e fizeram mais de 3000km. Desenvolveram o AM-01 (depois rebaptizado de TF101 aquando do lançamento do TF102) apenas para testar e quando se estrearam na Austrália em 2002 já utilizaram o seu sucessor, o TF102.

Mesmo tendo pago 11 milhões de dólares para atrsar um ano a entrada na F1 e poder testar exaustivamente entretanto, o TF102 com que a equipa se estreou nunca foi minimamente competitivo.

A estreia foi auspiciosa com um ponto logo na primeira corrida por Mika Salo. McNish esteve perto de repetir o feito na Malásia mas um erro da equipa nas boxes fê-lo acabar em sétimo. No Brasil Salo voltou a repetir o sexto lugar da Austrália mas o sucesso da equipa nesse ano acabou por aí. O carro revelou-se pouco fiável e a equipa acumulou desistências conseguindo ainda assim alguns oitavos e nonos lugares quando terminava. A época acabou mal para a Toyota que no Japão, em casa, nem sequer viu McNish alinhar devido a um violento acidente na 130R nos treinos que o impediu de estar na grelha no Domingo. A primeira época da Toyota terminava assim com a equipa em décimo, atrás da Minardi com os mesmos dois pontos (mas Mark Webber, na sua estreia, conseguiu um quinto lugar na Austrália) e à frente apenas da falida Arrows que não participou sequer nas últimas cinco provas por estar falida (e não voltaria a ser vista no Mundial).


2003 trouxe uma nova dupla de pilotos com Olivier Panis e Cristiano da Matta a substituírem Mika Salo e Allan McNish mas os resultados foram mais do mesmo. Conseguiu mais pontos pontos devido à alteração do sistema de pontuação que agora pontuava até ao oitavo lugar mas os melhores resultados foram dois sextos e um quinto lugar que no final do ano se traduziram num oitavo lugar entre os construtores.


No ano seguinte diríamos que a Toyota bateu no fundo mas a verdade é que não se pode dizer que alguma vez tivessem de lá saído. Em 2004 a Toyota apenas conseguiu metade dos escassos pontos que tinha obtido na época anterior, teve ambos os carros desqualificados por uma irregularidade com os travões no Canadá e esteve ainda envolvida num escândalo de espionagem industrial sendo acusada de copiar a Ferrari.

Um Ferroyota? No final de 2003 a Toyota foi acusada de ter copiado o F2002 da Ferrari. Se o fez, claramente foi aquele aluno que copiou à pressa os trabalhos de casa e trocou as respostas todas. Foto-montagem: pitpass.compitpass

O caso de espionagem estourou ainda no final de 2003 e foi assunto durante toda a temporada de 2004. Iria arrastar-se até 2007 com dois antigos empregados da Ferrari que se tinham mudado para a Toyota, Angelo Santini e Mauro Iacconi, a serem condenados por espionagem industrial mas a Toyota acabaria por se escapar das acusações. A Ferrari acusou a Toyota de ter copiado o seu F2002 com o TF103. Os acusados defenderam-se dizendo que "toda a documentação que trouxeram estava desactualizada e não teria grande utilidade". Estávamos na Era dos CD-Roms, Pen-Drives e fotocópias que haviam de protagonizar outra conhecida história de espionagem mas essa fica para outro dia. Se a Toyota copiou ou não o Ferrari, não estamos em condições de afirmar, mas olhando para os resultados podemos garantir que se o fez, fez o trabalho muito mal feito.


Voltando a 2004, pelo meio desta confusão toda a Toyota trocou ainda ambos os pilotos por Ricardo Zonta e Jarno Trulli para acabar novamente em oitavo no Mundial de Construtores. Péssimo, muito pouco para uma equipa que tinha um orçamento a par com o da Ferrari e recursos ilimitados à sua disposição. As lutas internas eram constantes e as dificuldades de comunicação entre a base na Europa e a sede no Japão bem conhecidas de todos. Um pouco à semelhança do que se passou com a Jaguar Racing mas amplificado à escala da Toyota, da sua estrutura e do seu investimento.

O TF105 foi de longe o melhor carro da Toyota na Fórmula 1. A equipa parecia estar finalmente no caminho certo mas no ano seguinte iria mostrar que não era bem assim.

Depois do calvário, parecia vir a bonança e 2005 foi o melhor ano de sempre da Toyota na Fórmula 1. Ralf Schumacher, um nome que trazia consigo várias vitórias na Williams, juntou-se a Jarno Trulli e os dois marcaram pontos em praticamente todas as corridas. Melhor do que isso, a equipa estreou-se nos pódios e por duas vezes ficou em segundo. Também em 2005 se estreou nas pole-positions, uma delas no Japão em frente ao seu público e a outra no infame Grande Prémio dos Estados Unidos onde todas as equipas equipadas com pneus Michelin se retiraram, naquela que foi a única corrida onde não houve nenhum Toyota à chegada. No final da temporada, o saldo foi de cinco pódios (entre eles dois segundos lugares), duas pole-position e o quarto lugar entre os construtores apenas atrás da campeã Renault e das históricas McLaren e Ferrari.

O GP do Japão de 2005 foi a primeira vez que um Toyota saiu da pole-position, algo que apenas iria ocorrer uma vez mais. A primeira pole da equipa contudo foi no GP dos EUA no mesmo ano mas aí nenhum dos carros chegou a arrancar para a corrida.

Só que aquilo que parecia ser finalmente uma equipa no rumo certo foi sol de pouca dura. Em 2006 a Toyota apenas marcou presença no pódio por uma vez, com Schumacher na Austrália, e fez menos de metade dos pontos da época passada. No final o sexto lugar soube a pouco depois dos prometidos progressos de 2005. O ano seguinte foi ainda pior, apenas treze pontos e o melhor resultado foi o sexto lugar de Ralf Schumacher no GP de França, a mesma posição em que a Toyota terminaria o campeonato de construtores. Uma desilusão, com todo o investimento realizado, depois de a equipa ter estado muito próxima das vitórias, teve que voltar a contentar-se em lutar pelos pontos. Para piorar ainda mais o cenário, a Williams, a quem a Toyota fornecia motores, foi quarta classificada, dois lugares à frente dos japoneses.


O ano de 2008 trouxe algumas melhorias e o regresso aos pódios, com Trulli em terceiro em França e Timo Glock que substituíra Ralf Schumacher a ser segundo na Hungria. 56 pontos e o quinto lugar no Mundial continuavam a ser curtos para as aspirações da Toyota na Fórmula 1 mas pelo menos a equipa parecia ter conseguido sair do fosso onde se metera em 2007. No fundo, a repetição do passado com 2005 a ser uma boa época depois do péssimo ano de 2004. A Toyota F1 parecia viver de altos e baixos sem encontrar um rumo certo.


Aquela que viria a ser a última temporada da Toyota na Fórmula 1 é um pouco o espelho do que foi todo o seu percurso: com Trulli e Glock a alcançarem dois pódios nas duas primeiras corridas (ambos conseguiram um terceiro e um quarto lugar em cada corrida) e por fim na quarta prova no Bahrein. Aí conseguiram também uma dobradinha na qualificação, com Trulli a obter aquela que viria a ser a última pole-position dos japoneses na Fórmula 1. A partir daí, e durante toda a temporada europeia, a equipa fez mais uma travessia do deserto a terminar frequentemente fora dos pontos, salvando-se o quarto lugar de Trulli na Turquia. Após a Europa, a escuderia de Colónia voltou a subir o seu desempenho ao conseguir dois segundos lugares em Singapura e em casa, no Japão. Por fim, ainda no Japão, Timo Glock teve um violento acidente que o afastou das duas últimas provas com o seu lugar a ser ocupado por Kamui Kobayashi que ainda foi a tempo de pontuar em Abu Dhabi. Foi também o único piloto japonês a correr pela Toyota durante a sua passagem pela Fórmula 1.


O TF109 foi o canto do cisne para a Toyota na Fórmula 1. Em plena crise económica e sem resultados à vista, o conbstrutor nipónico abandonou a Fórmula 1 no final da temporada de 2009.

Após o final da temporada, em plena crise económica, com a Toyota a apresentar resultados negativos pela primeira vez na sua história e com a tremenda falta de resultados face ao investimento de cerca de 400 milhões de dólares por ano, a casa-mãe desligou a ficha à Toyota F1 com efeitos imediatos. O TF110 já concluído e pronto a testar nunca chegou a correr.


Após oito temporadas completas, quase dez anos desde os primeiros testes, um investimento estimado de 3,2 mil milhões de dólares (números que pecam por escassos porque estamos a contabilizar apenas o investimento em cada época…) ficou muito longe de cumprir o objectivo de ser campeão do mundo seja do que for. Apenas treze pódios, três pole-positions, três voltas mais rápidas, um quarto lugar como melhor resultado entre os construtores e ZERO vitórias são o saldo da participação da Toyota na Fórmula 1. Ficam as devidas honras de serem o quinto construtor com mais participações sem uma única vitória (atrás da Arrows, Minardi, Force India e Lola) e de serem o segundo construtor com mais pódios sem nunca vencer (atrás da BAR que viria a alcançar uma vitória após ter passado para o controlo da… Honda).


O TF110 terminou os seus dias como Stefan GP S01 mas com um nome ou outro, nunca chegou a correr.

A participação da Toyota serviu no entanto para demonstrar que não basta uma quantidade infinita de dinheiro ou ter todos os meios à disposição para chegar ao sucesso na Fórmula 1. É preciso liderança, perseverança e uma organização à prova de bala.


TL, DR: maior construtor mundial decide entrar na Fórmula 1 com todos os meios possíveis e dinheiro infinito. Após 8 temporadas com um dos maiores orçamentos do pelotão apenas conseguem treze pódios e três pole-position sem nunca conseguir sequer uma vitória decidem deixar a Fórmula 1. O melhor resultado no Mundial foi um quarto lugar em 2005.

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Imagem "sobre nós": https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Pedro_Lamy_-_Imola_1996.jpg

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