Clemente Biondetti e o Ferrari-Jaguar

Clemente Biondetti e o Ferrari-Jaguar


Um Ferrari 166 repousa no Museu Ferrari, em Maranello. Este garantidamente tem motor Ferrari.

Recentemente abordámos aqui a curta e não muito bem sucedida passagem da Jaguar pela Fórmula 1. A Ford comprou a Stewart Grand Prix no final de 1999, rebaptizou-a de Jaguar Racing, já que o construtor inglês à data integrava o Premier Automotive Group da Ford, e integrou a grelha da Fórmula 1 durante 5 anos, até a Ford vender novamente a equipa no final de 2004, desta feita ao Grupo Red Bull.


Durante todo este tempo a equipa utilizou motores Cosworth, também ela então integrada no Universo Ford. A Cosworth, aliás, foi sempre a fabricante dos motores Ford nos mais de 30 anos que a marca da oval azul esteve na Fórmula 1 mas quando o construtor americano passou a correr com a sua própria equipa, a Jaguar, deixou cair o nome Ford para motorizar os carros verdes e correu simplesmente com o nome “Cosworth”. Apesar de ser um bem sucedido construtor de carros desportivos, nunca um motor Jaguar alinhou à partida de um Grande Prémio de Fórmula 1, nem mesmo quando o construtor alinhou com uma equipa oficial. Ou melhor, nunca… excepto uma vez. Logo na época inaugural do Campeonato do Mundo de Condutores, mais conhecido por estes dias como Campeonato do Mundo de Fórmula 1 um carro com motor Jaguar alinhou à partida, mais precisamente no Grande Prémio de Itália disputado como habitualmente no Templo da Velocidade, o Autódromo Nacional de Monza. O carro equipado com o motor Jaguar era, nem mais nem menos, do que um… Ferrari 166S. Este carro, inscrito por Clemente Biondetti tem a dupla particularidade de ser o único carro a alinhar no Mundial de F1 com um motor Jaguar e simultaneamente de ser o único Ferrari a alinhar numa prova do Mundial com um motor não-Ferrari.


Não, este chamava-se Jaguar mas nunca correu com motor Jaguar.

Biondetti teve uma carreira efémera na Fórmula 1, apenas disputou esse Grande Prémio de Itália de 1950 mas foi muito bem sucedido em grandes provas de resistência como as Mille Miglia e a Targa Florio. O piloto italiano foi mesmo o mais bem sucedido de sempre nas Mille Miglia com 4 vitórias em 1939, 1947, 1948 e 1949, às quais juntou também 2 vitórias na Targa Florio (1948 e 1949) e 1 na Copa Acerbo (GP de Pescara) (1939). Antes disso disputou regularmente provas de Grande Prémio e de Sports Car durante os anos 30, tendo integrado as equipas oficiais da Maserati, Alfa Romeo e pilotou ainda os Alfa Romeo da Scuderia Ferrari.


"O Rei das Mille Miglia" a caminho da vitória em 1947 ao volante do Alfa Romeo 8C

Biondetti tinha já 52 anos quando fez aquela que viria a ser a sua única prova de Fórmula 1. Para além de piloto, era também uma espécie de construtor amador e já nos anos 30 tinha construído um híbrido Maserati-Bugatti, justamente baptizado MB Special e, mais tarde, construiu uma réplica de um Jaguar C-Type quando a fábrica se recusou a vender-lhe uma unidade.


Infelizmente pouco se sabe acerca deste peculiar Ferrari-Jaguar. Terá sido provavelmente mais uma das experiências de Clemente Biondetti ou simplesmente pegou no material que tinha disponível. Biondetti tinha sido anteriormente o único piloto não-britânico a quem a Jaguar cedeu um dos seus novos XK120 de fábrica. Com o XK120 entrou numa Targa Florio onde foi forçado a desistir devido à quebra de um elemento do motor. O italiano mantinha boas relações com o fabricante inglês e após a prova tentou convencê-los a converter o carro para poder participar na então recém-estabelecida Fórmula 1. O pedido foi negado e então pediu um motor do XK120, que tão boa impressão lhe tinha deixado, para poder construir um carro à volta dele. O pedido foi novamente negado mas deixaram-no levar com ele o motor que tinha partido na Targa Florio. Já dá para ter uma ideia de onde terá vindo o motor que terá sido reconstruído para voltar a correr.


Certo é que apesar de Biondetti ter alcançado grandes resultados em provas de resistência no final da década anterior, os seus melhores anos já tinham passado, uma boa parte deles certamente perdidos para a guerra. As equipas de fábrica procuravam pilotos que lhes pudessem dar garantias ao longo de um ano inteiro por todo o Mundo e não apenas em eventos pontuais. A sua entrada no GP de Itália teve então que ser feita em nome próprio e por isso não teve continuidade. Para isso recorreu então ao famoso motor do XK120 , um 6 cilindros em linha Jaguar XK 3.4L, e colocou-o num Ferrari 166. Algumas fontes referem que a história ainda era mais complicada e por baixo da carroçaria Ferrari, estava uma boa parte de um chassis Maserati onde foi colocado o motor Jaguar. Outras fontes dizem que simplesmente colocou o motor do Jaguar no Ferrari. No meio da pouca informação existente, parece mais ou menos unânime que o Ferrari em questão era o chassis 02C, apontado por alguns como sendo o primeiro Ferrari vendido. Há quem diga que uns meses antes o chassis 02C foi reconvertido para um carro de estrada e a carroçaria substituída - o que daria força à teoria de que teria elementos de outro chassis por baixo da carroçaria.


À esquerda, na imagem, segue Clemente Biondetti no carro #22, o peculiar Ferrari-Jaguar durante o GP de Itália de 1950, em Monza.

O que não deixa dúvidas nenhumas é que no primeiro Grande Prémio do Mundial de Fórmula 1 disputado em Itália estava inscrito um Ferrari com o motor de um Jaguar. A primeira e única vez que um Ferrari foi inscrito com um motor que não tenha saído dos estábulos do Cavallino Rampante.


Para a história pouco mais ficou. No Grande Prémio qualificou-se em 25º de um total de 27 carros qualificados a uns notáveis 32 segundos do Alfa Romeo com que Juan Manuel Fangio conseguiu a pole. Na corrida, durou 17 voltas a aventura de Biondetti e do seu Ferrari-Jaguar, após as quais o motor inglês cedeu, terminando assim a carreira quer de Clemente, quer dos motores Jaguar na Fórmula 1.


Biondetti, apesar da idade, continuou a mostrar que era feito de fibra de campeão e ainda conseguiu um segundo lugar nas 12h de Pescara em 1952, então com 54 anos. Convém referir a dureza da prova de Pescara. O Circuito de Pescara era um circuito que utilizava ruas abertas ao público nos arredores da cidade com o mesmo nome. Tinha um perímetro de 25.8km e caracterizava-se por ser estreito e muito irregular. Fez parte do Mundial de Sportscar nos anos 50 e em 1957 fez parte do Mundial de F1, o que faz dele o circuito mais longo utilizado até hoje na Fórmula 1.


Quanto a Clemente Biondetti, a sua carreira estava no fim. Em 1954 o Rei das Mille Miglia foi diagnosticado com cancro e, apesar da sua persistência, teve que se retirar da competição. Perderia a mais difícil das lutas no ano seguinte deixando um legado impressionante nas grandes provas de resistência italianas.

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Imagem "sobre nós": https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Pedro_Lamy_-_Imola_1996.jpg

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